Carona pode não representar a solução de todos os problemas no trânsito, mas é uma contribuição
Carros parados em fila dupla, escassez de vagas para estacionar e tráfego intenso de automóveis, ônibus e vans. Esses são alguns dos problemas que voltam junto com as aulas. Mas esse é um desgaste que pode ser minimizado, por meio da prática da carona solidária entre colegas e vizinhos. "Quem me dera se todos se conscientizassem sobre essa alternativa. Isso beneficiaria não só a escola, mas toda a vizinhança, a comunidade e as famílias", avalia Zuleica Reis, diretora administrativa do colégio Santa Doroteia, no bairro Sion, e vice-presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep/MG).
Uma enquete promovida pela direção do Santa Doroteia revelou que o trânsito intenso durante o período letivo é o principal motivo de reclamações entre moradores da região, pais dos alunos e funcionários do colégio. Zuleica estima que transitam diariamente no entorno da escola entre 1.500 e 2.000 carros. "A carona não representa em si a solução para todos os problemas, mas é, sim, uma contribuição muito válida", destaca a diretora.
E o benefício da prática não se resume ao trânsito. A carona solidária pode resultar ainda em mais comodidade para os pais e amizade para as crianças. É o que afirma a advogada Elisa Teixeira de Faria, que há um ano se reveza com uma vizinha para levar e buscar as filhas, que estudam na mesma escola. "O principal é o tempo que sobra para a gente e é uma das coisas que mais precisamos hoje em dia. Para as meninas, que são filhas únicas, tem ainda esse contato, que é bom", explica.
O biólogo Marcos Hanashiro, que se formou no ano passado, pratica a carona desde os tempos de escola. Ele lembra que a prática entre os estudantes é saudável e econômica. "Vale muito a pena, porque, nos revezando, ajudamos a reduzir a poluição e ainda economizamos um pouco na gasolina", argumenta Marcos, que continua se alternando ao volante com colegas dos laboratórios de anatomia e genética da Faculdade de biologia da UFMG.
Débora Calenzani, destaca outro benefício da carona solidária para quem estuda à noite: a segurança. "Comecei a praticar a carona com uma colega que mora no meu bairro. Como saímos bem tarde da faculdade, não é bom andarmos sozinhas. Quando estamos acompanhadas, o risco é menor", argumenta a estudante da Newton Paiva. "Vemos muitos carros rodando com apenas uma pessoa, por falta de conscientização. A carona é um ciclo: um benefício vai puxando outro."
Lição que vai além da teoria - A prática da carona solidária entre os pais e professores é fundamental para a formação de uma geração mais consciente. É o que afirma a professora de matemática Marilda do Rosário Barradas. "A carona pode e deve ser mais incentivada. É uma ótima maneira de ensinarmos às nossas crianças, na prática, a importância de cuidar da cidade e do meio ambiente", explica a professora, que pratica a carona com duas colegas que moram no mesmo bairro.
Marilda leciona na Escola Municipal Vinicius de Moraes, no bairro Tirol, em Belo Horizonte, que promove a carona entre seus funcionários. "A gente sempre se preocupa em atrelar o discurso à prática. Não adianta entrar na sala e falar em atitudes, se no dia-a-dia não aplicarmos o que falamos", destaca Giovanna Raphael, coordenadora de projetos da escola.
Segundo a psicóloga Stella Tozo, especialista em terapia familiar, a carona pode trazer benefícios para a relação entre pais e filhos e também para o rendimento dos estudantes. "É nesses pequenos momentos que os pais têm a oportunidade de conhecer melhor a relação dos filhos com as amizades deles. E, além das conversas, eles podem ver também o exemplo dos pais. Essa lição se fixa mais do que as palavras", explica a professora da PUC Minas.
Fonte: O Tempo, 01/02/2010.
Imagem: Paulo Fernando Vieira de Almeida
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