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  • BH não vai parar

    Presidente da BHTRANS afirma que o trânsito da capital não vai ficar engessado dentro de alguns anos como indicam alguns estudos e diz que várias ações estão encaminhadas para que a cidade corrija problemas históricos

    Em fevereiro de 1908, tendo a bordo o prefeito Benjamin Jacob, circulava, pela primeira vez, um automóvel pelas ruas de Belo Horizonte. Cento e um anos depois a frota de veículos da cidade já passou de um milhão e cem mil. Aumentou a frota, a população já passou de 2,5 milhões, mas as vias de circulação, especialmente do Hipercentro, para onde converge a maioria dos deslocamentos, continuam exatamente as mesmas. Para muitos, Belo Horizonte, em pouco tempo, talvez em cinco anos, atinja o ponto máximo de saturação de suas vias. Ramon Victor César, presidente da BHTRANS, não acredita nisto. Admite até que, se nada for feito, a cidade pode chegar ao ponto de parar, mas num horizonte muito distante ainda. Garante, porém, que a BHTRANS e a Prefeitura estão trabalhando muito para modernizar o transporte coletivo, com a implantação do Transporte Rápido por Ônibus (TRO). Ele anuncia, também, uma mexida total no sistema viário da cidade nos próximos quatro anos, dentro do chamado Cenário da Copa do Mundo.

    Quando é que Belo Horizonte vai parar?

    Belo Horizonte não vai parar. Lá pelos anos de 1950, quando do quarto centenário de São Paulo, já havia o questionamento se a cidade iria ou não parar. Até marchinha criaram sobre o assunto. A cidade não parou. É evidente que as coisas ficaram mais difíceis, mas a cidade não parou. Eu acho que não existe este negócio de a cidade parar, até porque nós sempre teremos o remédio para as situações. Na BHTRANS, estamos elaborando um estudo que é planejamento estratégico da mobilidade urbana até o ano de 2020.

    Qual o principal ponto deste estudo?

    Precisaremos investir muito em transporte público. Inclusive para que os carros tenham condições de circular, é preciso que o transporte público seja de boa qualidade e tenha facilidade de circulação. Primeiro porque com isto a gente vai conseguir captar uma parte da demanda do carro para o transporte coletivo em determinadas rotas. Esta transferência modal de transporte, seja por ônibus, seja por metrô, que a gente imagina que vai crescer, será muito importante para garantir a mobilidade.

    O governo está apostando na indústria automobilística como alternativa para que o país saia da crise econômica. Por outro lado isto exige muito mais recursos para se assegurar as condições de tráfego a estes veículos.

    O aumento da taxa de motorização termina sendo um indicador de riqueza. Significa que a sociedade está ficando mais rica, e isto é muito bom. Mas tem um lado perverso para nós que temos a responsabilidade de gestão do transporte e trânsito. Não tem nenhuma cidade do país, eu acho que do mundo todo, que consiga viabilizar investimentos no ritmo necessário para fazer frente a este crescimento da motorização. As pessoas devem ter a garantia de que poderão usar seus veículos, mas necessitam da opção de utilizarem o transporte público.

    Além do excesso de veículos, o traçado e o perfil de crescimento da cidade é outro problema para o trânsito de Belo Horizonte?

    Temos algumas áreas de atração, mas o grosso dos fluxos converge para a área central da cidade. Isto faz com que os corredores à área central fiquem congestionados e, óbvio, que aquilo que chamamos de Hipercentro fique congestionado. Então, se a gente conseguir implantar corredores entre bairros sem passar pela área central, vamos conseguir tirar pelo menos 25% do trânsito pelo Hipercentro.

    A Avenida Antônio Carlos já está sendo tratada dentro deste projeto?

    Na Avenida Antônio Carlos estamos fazendo um tratamento de melhoria de um corredor. Nós ainda, forçosamente, estamos tratando dentro da lógica de melhorar o fluxo de carro que vem para o centro da cidade. Ele é histórico, tem cem anos que é assim, que a cidade desenvolveu, e você não muda isto de uma hora para outra.

    Então como será o trânsito em Belo Horizonte?

    Hoje a situação do trânsito é a seguinte: você tem a área central, os corredores convergindo para ela. O que nós vamos fazer é ligações por fora. O Corta Caminho, programa que estamos elaborando, fará caminhos novos, que serão anéis. Primeiro precisaremos recuperar e melhorar o Anel que já existe. Depois pensamos em construir um outro anel, que estamos chamando de Anel Intermediário, com a construção de algumas vias novas e aproveitamento de outras já existentes. O Anel que está no Corta Caminho pega a Avenida dos Andradas em direção à região Leste, na altura do São Geraldo, será aberta a Via 710, que está em projeto, que ligará a Andradas à Cristiano Machado, ao lado do Minas Shopping, encaixando com a Bernardo Vasconcelos, até a Antônio Carlos e chegando à Pedro II. Para ali está programado um túnel, ligando Pedro II com Tereza Cristina, com aproximadamente 2 km de extensão. Esta obra está dentro do chamado "Pacto da Mobilidade".

    E a melhoria no sistema de transporte coletivo?

    Vamos modificar o esquema de circulação na área central. O projeto já está contratado e só não começou a ser elaborado porque precisamos acabar a contratação do projeto do BRT  (Bus Rapid Transit), que está sendo defendido no mundo inteiro como solução para transporte público. O modelo que pretendemos implantar aqui é o usado em Bogotá, que tem seu DNA no que foi criado, já há algum tempo, em Curitiba. Este sistema já está sendo usado até nos Estados Unidos. O BRT é um sistema de alta capacidade de transporte, com ônibus articulado, que pode atender a 240 passageiros numa composição. Ele opera numa faixa própria, utilizando estações fechadas, de pontos em pontos, com embarque pré-pago, como no metrô, com bilhete eletrônico, e com o piso nivelado com o da estação. Temos então três fatores que, além do conforto para o passageiro, asseguram ganho de tempo: nivelamento do piso do ônibus com a plataforma de embarque, pré-pagamento e controle de despacho do ônibus com tecnologia da informação.

    O senhor falou em ganhar tempo. Qual é hoje a velocidade comercial do nosso sistema de transporte coletivo?

    É difícil de acreditar, mas no Hipercentro, no pico da tarde, ela é de nove quilômetros/hora. Não precisa ser corredor nem ter bom preparo físico para fazer este percurso em menor tempo. O novo sistema terá velocidade média de 25 km ou até de 30, que é o ideal. Há estudos que mostram que até uma determinada demanda, como a nossa, o BRT atende igual a um metrô, com apenas 10% do valor do investimento.

    O sistema, como no caso do metrô, tem linhas alimentadoras?

    Ele tem que ser alimentado. No caso do BRT Antônio Carlos/Pedro I, teremos uma linha com uma ponta na Vilarinho, com uma estação em Venda Nova. Na barragem da Pampulha uma outra estação e uma outra linha entrando pela Avenida Portugal até o Céu Azul. Ao longo da Antônio Carlos haverá várias outras estações, com o sistema chegando até o centro. Ao longo de seu percurso ele receberá várias linhas alimentadoras em suas estações. É bom ressaltar que, na abordagem inicial do sistema, estamos colocando o ponto final no Vilarinho. Mas nós estamos contratando o projeto definitivo agora e vamos considerar a hipótese de chegar à Cidade Administrativa.

    Haverá outras linhas do sistema de transporte rápido por ônibus?

    Vamos dizer que o sistema da Antônio Carlos será o top de linha. O projeto de duplicação da Avenida prevê a construção de duas faixas exclusivas para ônibus em cada sentido. Isto dará condições de ultrapassagem, assegurando condições ideais para o fluxo de coletivos. O sistema vai operar também no corredor da Cristiano Machado, do São Gabriel à Lagoinha. Aí não teremos as condições ideais, pois as ultrapassagens serão possíveis apenas nas estações. Junto com o projeto da Cristiano Machado vamos contratar o Pedro II/Carlos Luz. Estas são as prioridades que se encaixam no projeto Copa do Mundo.

    Para quem circula de carro, em Belo Horizonte ou qualquer outra cidade de maior porte, estacionar é um drama. A BHTRANS tem alguma proposta para solucionar este problema?

    Por determinação do prefeito Marcio Lacerda, elaboramos e publicamos um Programa de Manifestação de Interesse, em que colocamos aos empreendedores propostas para a construção de edifícios-garagem e estacionamento subterrâneo, este mediante concessão. Os locais de implantação deste tipo de estacionamento dependerão da viabilidade econômica do empreendimento, estudo que caberá ao interessado. Em princípio, acho que a Praça Afonso Arinos é uma área viável, assim como a Praça da Assembléia. Nossa ideia é, com a construção do subterrâneo, eliminarmos as vagas do rotativo dentro de um determinado raio. Com isto estaremos ajudando a viabilizar o empreendimento e liberando faixa de tráfego nas vias, importante para ajudar no fluxo de veículos.

    O senhor acredita no metrô em Belo Horizonte? O sistema que está aí, mais parecendo um trem suburbano, funciona?

    Este trem, que não é trem de mineiro, que temos aí, é uma boa solução. Só que é preciso modernizar o sistema, com a substituição dos atuais carros, que são muito pesados, por tecnologia mais nova. Agora para o desenvolvimento do sistema de metrô em Belo Horizonte o governo do Estado e a Prefeitura de Belo Horizonte já apresentaram ao governo federal proposta de PPP. Pessoalmente, acho que é o caminho. Desenvolver o metrô como obra pública, com recursos do orçamento geral da União, é transformar o metrô em uma novela interminável que, muitas vezes, não tem capítulo novo, como este ano, que não tem recurso para investimento. Vamos esperar para ver se, dentro do cenário Copa do Mundo, conseguimos melhorar e ampliar o sistema.

    Existe uma indústria da multa na cidade?

    Se a BHTRANS fosse uma indústria de multa, muito provavelmente ela estaria quebrada. As multas representam no máximo 30% de nossas receitas operacionais. No ano passado apenas um terço da frota da cidade foi multada. E isto não significa que os outros 2/3 não tenham cometido erros. Muito provavelmente cometeram irregularidades, mas não foram alcançados pela fiscalização. Assim, multamos muito pouco em relação ao potencial de multas que tem por aí. Não podemos nos esquecer também de que a multa tem caráter educativo e também de punição.

    Fonte: Revista Viver Brasil, Flávio Penna, 28/08/2009.

Imagem: Divino Advincula



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